Aquelas primeiras semanas com um recém-nascido podem parecer a convivência com um visitante minúsculo e misterioso de outro planeta. Ele olha “através” de você, se assusta do nada, se acalma instantaneamente com um som e chora com outro. É bem possível que, no meio da madrugada, você se pegue pensando: o que o meu bebê realmente consegue ver e ouvir agora? Ele me reconhece mesmo?
Sim. O mundo do seu bebê é menor e mais suave que o seu, mas já é cheio de sensações. O desenvolvimento sensorial do recém-nascido acontece o tempo todo - e você está bem no centro disso tudo.
Este guia mostra o que o seu bebê consegue ver, ouvir, sentir e cheirar nas primeiras semanas de vida e como você pode apoiar esse desenvolvimento de forma leve, sem transformar isso em mais uma tarefa ou um espetáculo. Só o básico do dia a dia, com um pouco de magia.
A visão do bebê no começo é mais específica do que parece. Nas primeiras semanas, o recém-nascido enxerga melhor a cerca de 20 a 30 cm de distância. É mais ou menos o espaço entre o seu peito e o seu rosto enquanto você amamenta ou oferece a mamadeira.
Ou seja, quando você se inclina para alimentar o bebê, o seu rosto fica exatamente na distância ideal da visão do recém-nascido. Parece até projeto bem pensado da natureza, não é?
Além desses 20 a 30 cm:
Se você se pergunta como o recém-nascido enxerga, imagine assim: o seu bebê consegue ver você suficientemente bem para perceber formas grandes e contrastes quando está pertinho, mas ainda não distingue os detalhes da estante de livros lá longe.
No começo da vida, o bebê tem dificuldade para enxergar nuances muito suaves de cor. Aquela decoração toda em tons pastéis pode até ficar linda no quarto, mas para o recém-nascido vira praticamente um borrão delicado.
O que o bebê enxerga melhor:
É por isso que padrões preto e branco para bebê, como cartões de alto contraste ou móbiles em preto e branco, são tão indicados. O seu bebê não está “na moda”. O sistema visual dele realmente se fixa com mais facilidade nesses contrastes do que em cores suaves.
Mas não é preciso comprar um arsenal de brinquedos especiais. Ideias simples do dia a dia funcionam muito bem:
Somos feitos para nos conectar com outras pessoas. Mesmo recém-nascidos já mostram uma preferência clara por rostos em vez de outros objetos.
Pesquisas, inclusive de universidades europeias como a Universidade de Oxford e estudos replicados em instituições brasileiras, mostram que bebês de poucas horas de vida olham por mais tempo para desenhos com formato de rosto do que para desenhos aleatórios. Para eles, um rabisco simples com dois pontos e uma linha pode ser mais interessante do que uma ilustração cheia de detalhes abstratos.
Nas primeiras semanas:
E aqui está uma das formas mais simples de apoiar o desenvolvimento sensorial do recém-nascido:
Já na primeira ou segunda semana, muitos recém-nascidos começam a mostrar um seguir objeto com os olhos ainda bem básico.
Eles não conseguem acompanhar algo que cruza o campo de visão muito rápido. Mas um movimento lento e suave já é possível.
Você pode tentar assim:
Recém-nascidos costumam seguir melhor:
Se o seu bebê não acompanha sempre, não se assuste. Ele ainda está se adaptando. Pense nisso como um convite gentil, não como um teste que ele precisa passar.
A visão de cores aparece aos poucos. Ao nascer, o bebê vê o mundo principalmente em tons de cinza, preto e branco, com uma pequena sensibilidade às cores começando a despertar.
O que se sabe sobre quando o bebê vê cores:
Então, nas primeiras semanas, se a ideia é o bebê perceber alguma cor:
Não há qualquer necessidade de “correr” com o aprendizado de cores. Isso acontece naturalmente. Sua função é só oferecer um mundo que não seja inteiramente bege ou de cores quase invisíveis.
Ao contrário da visão, a audição do bebê chega ao mundo com um bom nível de maturidade. Ele passou meses ouvindo dentro do útero, mesmo com a camada de líquido e o seu corpo entre ele e o ambiente externo.
Desde o nascimento, a maior parte dos recém-nascidos é capaz de:
Enquanto a visão ainda “engatinha”, os ouvidos já ajudam bastante o bebê a entender esse novo mundo.
Sim, e muito. Se você já se perguntou se o bebê reconhece a voz da mãe, a resposta é praticamente sempre: sim.
Durante a gravidez, você falou, riu, conversou com outras pessoas, ouviu música, participou de reuniões, atendeu telefone. O seu bebê escutou tudo isso, filtrado pela água e pelos batimentos do seu coração. Quando nasce, a sua voz já é aquela trilha sonora conhecida.
Nas primeiras semanas:
Você pode aproveitar isso a seu favor:
No começo, falar assim pode parecer estranho, mas a sua voz é uma das ferramentas mais poderosas para o desenvolvimento do bebê.
Você pode perceber que, de repente, o bebê abre os bracinhos, escancara as mãozinhas e depois puxa tudo de volta para o peito, às vezes acompanhado de um choro. Este é o reflexo de sobressalto do recém-nascido, conhecido também como reflexo de Moro.
Barulhos altos ou repentinos costumam disparar esse reflexo:
Esse reflexo:
Para ajudar:
É bem comum perceber que, sem nem notar, você começa a falar com o bebê em um tom um pouco mais agudo. Ou ouvir alguém usando o famoso “falar com voz de bebê” e se perguntar por que todo mundo faz isso instintivamente.
Os bebês realmente preferem vozes agudas. Estudos feitos em universidades europeias e também em grupos de pesquisa aqui no Brasil mostram que recém-nascidos prestam mais atenção a falas que sejam:
Esse jeito de falar, chamado às vezes de “fala dirigida ao bebê”, ajuda a criança a:
Então não se sinta ridícula se você se pega dizendo: «Olha esses pezinhos gostosos!» numa voz que nem parece a sua. Esse tom não é só bonitinho. Ele favorece a audição do bebê e a comunicação desde o começo.
A vida dentro do útero é tudo, menos silenciosa. Tem o som do sangue circulando, barulhos do intestino, o compasso dos batimentos do seu coração e o mundo lá fora chegando mais abafado.
Muitos recém-nascidos se acalmam com sons que lembram essa rotina de antes:
Esses sons:
Se for usar ruído branco:
Entre todos os sentidos, o toque é o que o recém-nascido já traz mais pronto desde o primeiro dia.
Ele ainda não enxerga você perfeitamente, mas sente. Sente a temperatura da sua pele, a pressão da sua mão nas costas, o encaixe do seu colo ao redor do corpo dele.
Você provavelmente já ouviu enfermeiras, médicos ou o pessoal do pré-natal falarem de “contato pele a pele”. Não é à toa que esse assunto volta o tempo todo.
Para o recém-nascido, o contato pele a pele:
Algumas ideias práticas:
Em muitas famílias, é nesse momento que aparecem aqueles minutos mais tranquilos e cheios de presença nas primeiras semanas.
Os recém-nascidos têm um olfato bem mais apurado do que a gente imagina. Muito antes de ver o seu rosto com nitidez, o bebê já é capaz de reconhecer o seu cheiro.
O olfato ajuda o bebê a:
Talvez você note que:
Não é preciso deixar de se cuidar ou de usar sabonete, claro. Só vale lembrar que perfumes muito fortes, cremes muito cheirosos e excesso de aromatizantes de ambiente podem ficar exagerados para o nariz sensível do bebê.
Para estimular o desenvolvimento sensorial do bebê, não é preciso curso especial, aplicativo, brinquedo caro ou quarto cheio de acessórios. A convivência diária com você e com a casa já oferece bastante estímulo.
Aqui vão ideias leves, realistas, que cabem na rotina de qualquer família.
Aproveite sempre que puder a distância de visão do recém-nascido de 20 a 30 cm.
Mesmo poucos minutos de silêncio e atenção, rosto com rosto em cada mamada, ajudam a:
Para estimular com suavidade a visão do bebê:
Uma dica rápida: cole um postal preto e branco na lateral do berço, onde o bebê costuma ficar “olhando pro nada”. Pode ser que você repare que, de tempos em tempos, ele volta a encarar aquele ponto, como se estivesse “estudando” a imagem por alguns segundos.
A sua voz é o principal motor da audição do bebê e da linguagem, mesmo nessa fase tão precoce.
Formas simples de usar isso a seu favor:
Ninguém vai avaliar a sua afinação. Para o seu filho, a sua voz, ainda que desafinada, é infinitamente mais importante e reconfortante do que qualquer gravação perfeita.
Para o toque e a segurança emocional:
Mesmo sessões curtas já fazem diferença. Não precisa ser perfeito nem durar horas.
Para ajudar o bebê a se ajustar ao mundo fora do útero:
Esses sons lembram a vida intrauterina e passam a mensagem: «Você está seguro. Você está protegido».
Quando o cansaço bate forte, é fácil pensar que você deveria estar “fazendo mais” pelo seu bebê - mais estímulos, mais atividades, mais compromissos.
Na prática, as primeiras semanas giram em torno de momentos simples e repetidos:
É assim que visão do bebê, audição do bebê, toque e olfato vão se combinando e criando uma sensação de mundo seguro.
Na próxima vez que você estiver acordado às 3 da manhã, com o recém-nascido olhando para algum ponto perto do seu queixo, lembre: ele não está apenas encarando o vazio. Ele está estudando, com toda a concentração possível, a pessoa que, para ele, é literalmente o universo inteiro.
E você provavelmente já está fazendo muito mais pelo desenvolvimento sensorial do seu bebê do que imagina.