Poucos sons mexem tanto com a gente quanto o choro do próprio filho. O peito aperta, os pensamentos aceleram e surge aquela dúvida: por que meu bebê chora se eu já tentei de tudo? Se você está se sentindo no limite, saiba que isso não significa que está falhando.
O choro de bebê é uma forma de comunicação, não uma avaliação da sua capacidade como mãe, pai ou cuidador. Com o tempo, você começa a reconhecer padrões. Até lá, ter uma rotina simples para checar as necessidades do bebê pode ajudar a entender o que está acontecendo e a acalmá-lo com segurança.
Como o bebê ainda não fala, o choro é a principal maneira de pedir ajuda. Um recém-nascido não consegue dizer que está com fome, sono, frio, calor, desconforto ou precisando de colo. Ele chora porque alguma necessidade pede atenção.
Às vezes, a causa é fácil de perceber. Em outras, principalmente quando o bebê chora à noite ou no fim da tarde, parece não haver explicação.
Os motivos mais frequentes incluem:
Também é possível que haja mais de uma coisa acontecendo. Um bebê com fome pode estar exausto. Um bebê com gases pode se cansar ainda mais de tanto chorar. Em vez de procurar uma resposta milagrosa, vale testar as possibilidades com calma.
É natural querer entender cada tipo de choro como se existisse um dicionário universal. Há sinais que ajudam, mas cada bebê tem seu próprio jeito de se expressar. O mesmo choro pode mudar de um dia para o outro, e ninguém conhecerá os sinais do seu filho melhor do que você com o passar do tempo.
Ainda assim, observar o ritmo, a intensidade do som e a linguagem corporal pode dar pistas importantes.
O choro de fome costuma começar de forma discreta, com resmungos, inquietação ou pequenos sons repetitivos. Se a mamada demora, ele tende a ficar mais intenso. Antes de chorar, muitos bebês mostram os primeiros sinais de fome no bebê:
Chorar geralmente é um sinal tardio de fome. Ao perceber esses indícios cedo, a mamada costuma ser mais tranquila para todos. Saber como identificar choro de fome pode levar um tempo, mas a observação diária ajuda muito.
O choro de sono pode começar como uma reclamação baixinha e irritada. O bebê pode esfregar os olhos, bocejar, puxar a orelha, olhar para o vazio ou virar o rosto quando alguém tenta interagir.
Alguns bebês ficam ainda mais agitados quando estão com sono: chutam, balançam os braços e parecem lutar contra o descanso.
Recém-nascidos suportam pouco tempo acordados, muitas vezes entre 45 minutos e 1 hora. Quando o bebê já está desesperado, pode estar cansado demais e precisar de mais ajuda para relaxar.
O choro de dor no bebê costuma ser súbito, mais alto, agudo ou muito mais intenso que o choro habitual. Pode começar sem aquela fase inicial de resmungo. O bebê talvez encolha as pernas, arqueie as costas, fique pálido ou não se acalme com facilidade.
Um grito isolado não significa necessariamente algo grave. Mas, se a sensação for de que “esse choro está diferente”, confie na sua percepção e observe o bebê com atenção.
Um bebê entediado pode reclamar, se acalmar quando alguém conversa ou brinca com ele e voltar a chorar logo depois. Já quando o bebê chora quando superestimulado, o ambiente costuma ser parte do problema: TV ligada, visitas, luz intensa, muitos brinquedos, muito colo de pessoas diferentes ou um passeio longo.
Observe se ele vira o rosto, fecha os punhos, faz movimentos bruscos, pisca demais ou fica com a face vermelha e cansada. Nesses momentos, menos é mais. Um quarto mais escuro, colo e um som contínuo podem funcionar melhor do que tentar distraí-lo ainda mais.
Quando o choro está forte, é comum a cabeça ficar confusa. Uma lista ajuda a seguir uma ordem e evita que você se sinta perdido. Vá com calma, verificando um item por vez.
Ele está com fome?
Ofereça o peito, a mamadeira ou o leite ordenhado se já passou algum tempo desde a última mamada ou se houver sinais de fome. Recém-nascidos em aleitamento materno podem mamar de 8 a 12 vezes em 24 horas, às vezes até mais em períodos de mamadas agrupadas.
A fralda precisa ser trocada?
Veja se está molhada, suja, apertada demais ou se há assaduras e irritação na pele.
Ele está com frio ou calor?
Toque o peito, a barriga ou a nuca do bebê, não apenas mãos e pés, que costumam ficar frios mesmo quando a temperatura está boa. Para dormir, o quarto deve estar arejado e agradável, em geral entre 20 °C e 22 °C. Ajuste as camadas de roupa conforme necessário.
Ele está com sono?
Diminua as luzes, reduza os barulhos e comece a rotina de sono. Não espere o bebê ficar exausto. Os primeiros sinais de cansaço costumam ser a melhor hora para tentar colocá-lo para dormir.
Pode ser gases ou dor na barriga?
Faça pausas para arrotar durante e após a mamada. Mantenha o bebê ereto no ombro, faça movimentos suaves de bicicleta com as pernas ou massageie a barriga no sentido horário quando ele estiver calmo.
Ele recebeu estímulos demais?
Leve-o para um lugar tranquilo, desligue a televisão e peça para as visitas darem um pouco de espaço. Não precisa haver silêncio absoluto, mas um ambiente previsível e calmo ajuda.
Ele só quer colo?
Pegue no colo, aproxime-o do seu corpo e fale baixinho. Bebês não estão tentando manipular ninguém quando pedem contato. Eles precisam da ajuda de um adulto para se sentirem seguros e regularem as emoções.
Essa sequência ajuda a responder, na prática, por que o bebê chora. E, se você checar tudo e não encontrar uma causa clara, isso também pode acontecer. Às vezes, o bebê precisa de ajuda para se organizar e relaxar mesmo quando suas necessidades básicas já foram atendidas.
Não existe uma técnica que funcione com todos os bebês, todos os dias. Muitas vezes, o resultado vem da combinação de pequenos cuidados. Comece pelo básico e acrescente conforto conforme a reação do bebê.
Nos primeiros meses, a fome deve ser uma das primeiras hipóteses, porque é muito comum. Ofereça o peito, a mamadeira ou o leite ordenhado sem medo de criar maus hábitos. Mamadas frequentes fazem parte da rotina de muitos recém-nascidos.
Se o bebê larga a mamada chorando, arqueia as costas repetidamente, tosse, engasga, vomita com força ou parece desconfortável na maior parte das mamadas, converse com o pediatra ou com a equipe da Unidade Básica de Saúde. Dificuldades de pega, refluxo e outras questões de alimentação precisam de avaliação e têm tratamento.
O contato pele a pele é uma das formas mais acolhedoras de acalmar bebê. Coloque o bebê apenas de fralda, de barriga para baixo e na posição vertical sobre o seu peito nu. Cubra as costas dele com uma manta leve ou com sua roupa, mantendo o rosto livre.
Fique sentado ou reclinado com segurança e permaneça acordado. O calor do corpo, o cheiro, os batimentos cardíacos e o ritmo da respiração ajudam o bebê a se sentir protegido. Essa prática também favorece a amamentação e o vínculo.
Não é algo reservado às primeiras horas após o parto. Pode ajudar por muitas semanas e meses.
Os chamados “5 S” são técnicas para acalmar bebê bastante usadas com recém-nascidos. A ideia é reproduzir, de maneira segura, sensações de contenção e movimento parecidas com as que o bebê vivia no útero.
Não é preciso usar todos os recursos de uma vez. Experimente um ou dois e perceba como o bebê reage.
Um sling ou canguru bem ajustado une calor, proximidade e movimento, uma combinação que funciona muito bem para vários bebês. Pode ser especialmente útil no fim da tarde, quando o bebê quer colo o tempo todo e você precisa ficar com as mãos livres.
Siga os princípios de segurança: o bebê deve estar bem preso ao corpo, visível o tempo todo, perto o suficiente para beijar, com o queixo afastado do peito e as costas bem apoiadas. O rosto precisa ficar livre de tecido.
Evite alimentar o bebê no sling sem conseguir vê-lo claramente e sem garantir uma posição segura.
Um som constante e baixo pode ajudar alguns bebês a relaxar, pois disfarça ruídos repentinos da casa. Pode ser o som de chuva, ventilador ou uma faixa de ruído branco, em vez de músicas com muitas mudanças de ritmo.
Mantenha o volume baixo, próximo ao de uma conversa tranquila, em torno de 50 dB ou menos. Deixe o aparelho longe do berço e nunca coloque som alto perto da cabeça do bebê durante toda a noite.
Quando nada funciona na sala, mude de lugar. Vá até a varanda, fique perto de uma janela aberta ou dê uma volta curta e tranquila ao ar livre. O ar fresco e um cenário diferente podem interromper o ciclo de choro.
Trocar de cômodo também pode ajudar. Às vezes, quem precisa de uma pausa mental é o adulto tanto quanto o bebê.
Um banho morno pode relaxar um bebê tenso, principalmente antes do sono noturno. A água deve estar morna, nunca quente, e tudo deve estar separado antes de começar para que você mantenha uma mão no bebê o tempo inteiro.
Nem todos gostam de banho. Se o seu filho chora ainda mais na água, não é preciso insistir em uma rotina que deixa todos nervosos.
O movimento constante do carrinho ou do carro pode ser eficaz quando o bebê está muito irritado, inclusive nas noites difíceis. Garanta que ele esteja corretamente preso ao cinto do carrinho ou à cadeirinha adequada para a idade e o peso.
Se o bebê dormir na cadeirinha do carro, transfira-o para uma superfície firme e plana, de barriga para cima, assim que possível ao chegar ao destino. Cadeirinha é equipamento de transporte, não local de sono habitual.
A palavra “cólica” costuma ser usada quando um bebê saudável chora intensamente e não há uma causa evidente. Em geral, fala-se em cólica quando o choro dura mais de três horas por dia, em pelo menos três dias da semana.
Ela costuma começar nas primeiras semanas de vida, atingir um pico entre 6 e 8 semanas e melhorar até os 3 ou 4 meses. Por isso, quando o bebê chora por cólica, é comum que os cuidadores se sintam esgotados.
Alguns sinais associados à cólica são:
A cólica é cansativa, mas não é culpa dos pais. Antes de oferecer chás, medicamentos, probióticos, gotas ou fazer mudanças importantes na alimentação, procure orientação do pediatra, da equipe da UBS ou de um profissional de saúde de confiança.
Procure atendimento médico urgente, ligue para o SAMU 192 ou vá a uma unidade de pronto atendimento se o bebê apresentar:
Você conhece seu bebê. Pedir ajuda é sempre válido.
Haverá momentos em que você vai alimentar, trocar a fralda, fazer arrotar, dar colo, embalar, caminhar e fazer sons suaves, mas o bebê continuará chorando. Quando o bebê chora muito ou parece que o bebê chora sem motivo, podem surgir raiva, medo, tristeza, culpa e até desespero.
Esses sentimentos são mais comuns do que parece. O choro foi feito para ser difícil de ignorar. Estar sobrecarregado não faz de você uma pessoa ruim.
O importante é saber o que fazer em seguida.
Se perceber que chegou ao seu limite:
Um bebê chorando em um berço seguro está mais protegido do que um bebê no colo de um adulto que perdeu o controle. E nunca sacuda um bebê. Sacudir pode provocar lesões graves no cérebro e até levar à morte em poucos segundos.
Aprender como acalmar recém-nascido não é encontrar um truque perfeito. É observar, responder, testar alternativas e aceitar que alguns dias serão difíceis. Seu bebê não precisa de perfeição. Ele precisa de segurança, carinho e de um cuidador que também procure apoio quando necessário.