Se você está amamentando e não faz ideia do que afinal «pode» comer, não está sozinha. Entre palpites da família, posts aleatórios no Instagram e conselhos antigos, dá a sensação de que qualquer coisa no seu prato é perigosa.
A verdade, que quase se perde no meio de tanto barulho, é simples: a maioria das mulheres que amamentam não precisa de uma dieta restritiva.
O seu corpo é inteligente. Ele sabe produzir leite materno a partir de muitos tipos de alimentos. Você não precisa cortar laticínios por precaução, viver meses a fio de frango cozido sem tempero, nem entrar em pânico cada vez que sente vontade de comer um prato mais temperado.
Este artigo explica, de forma prática, o que comer amamentando, o que faz sentido limitar e quais mitos sobre dieta da lactante você pode ignorar sem culpa. Com base em evidências, sem terrorismo nutricional e adaptado à realidade de quem cuida de um bebé que não quer saber se você já almoçou.
Provavelmente já ouviu pelo menos uma destas frases:
Quase tudo isto é mito.
A composição do leite materno é bem mais estável do que as pessoas imaginam. De acordo com recomendações de sociedades de pediatria e nutrição de Portugal e do Brasil, a alimentação da mãe altera apenas alguns componentes do leite materno, e mesmo assim geralmente de forma discreta.
O corpo dá prioridade ao bebé. Se for preciso, ele vai buscar nutrientes às reservas da mãe para continuar a produzir um leite adequado. Isso não quer dizer que a sua alimentação não importe - importa, e muito, para a sua energia, humor e saúde a longo prazo. Mas raramente justifica dietas extremamente restritas.
Na maior parte dos casos, não.
Posso consumir leite e derivados amamentando?
Sim, a menos que o seu bebé apresente sinais claros de alergia à proteína do leite de vaca (vamos falar disto mais à frente). Iogurte, queijo, um pouco de leite no café, tudo isso é bem tolerado pela maioria dos bebés.
Comida picante na amamentação
Em muitos países, as mães comem comida bem temperada todos os dias enquanto amamentam e os bebés crescem saudáveis e mamam normalmente. Há estudos que mostram que sabores de alho e especiarias passam ligeiramente para o leite materno e até podem ajudar a criança a aceitar melhor os alimentos da família mais tarde. Mães indianas, mexicanas ou brasileiras que adoram pimenta não vivem de bolacha de água e sal durante um ano, e você também não precisa.
Alho e amamentação
O alho pode alterar um pouco o sabor e o cheiro do leite. Pesquisas na Europa mostraram que alguns bebés até sugam o peito por mais tempo quando a mãe consumiu alho. Ou seja, nada de «o bebé vai rejeitar o peito».
Couve, feijão e alimentos que provocam cólica no bebé
Os gases que você sente como adulta são produzidos no seu intestino, não vão parar ao leite materno. Eles não «viajam» diretamente para o leite. Alguns bebés são sensíveis a determinadas proteínas ou açúcares, mas na maioria das vezes a irritação do bebé não está ligada àquela couve-flor ou ao feijão que você comeu.
Você só precisa retirar um alimento se perceber um padrão claro e repetido de o bebé reagir àquele alimento, e normalmente isso é temporário e bem específico, não um veto geral a metade do supermercado.
Em vez de pensar em «dieta amamentação» como uma lista de proibições, pense em alimentação saudável do dia a dia, com um pouco mais de flexibilidade para lidar com a fome e o cansaço.
Tente incluir:
Bastante alimento de origem vegetal
Frutas, legumes, verduras, feijão, grão de bico, lentilha, cereais integrais. Produtos congelados ou enlatados simples também contam - a vida real com um bebé nem sempre permite tudo fresco.
Boas fontes de proteína
Ovos, aves, peixe, carnes magras, iogurte natural, queijos, tofu, leguminosas (feijão, lentilha, ervilha, grão de bico), frutos secos e sementes.
Gorduras de qualidade
Azeite de oliva, óleo de canola, abacate, frutos secos, sementes, peixes gordos como salmão ou sardinha.
Hidratos de carbono para energia
Pão integral, aveia, arroz integral, massa, batata e batata doce. Pão e arroz brancos não estão proibidos, basta equilibrar com outras opções.
Perfeição é impossível com um recém-nascido em casa. Um sanduíche de queijo e uma banana, comidos às pressas enquanto o bebé mama, ainda assim são uma refeição decente. A sua alimentação na amamentação não precisa ser «instagramável».
O corpo gasta bastante energia para produzir leite. Em média, a amamentação utiliza cerca de 400 a 500 kcal extra por dia nos primeiros meses, de acordo com orientações de sociedades de nutrição de língua portuguesa.
Isso não significa que precise ficar a contar calorias. Significa que:
Como guia geral:
Se já tinha excesso de peso antes da gravidez, o corpo pode usar parte da gordura armazenada para produzir leite, então talvez não precise das 500 kcal extra todos os dias. A ideia é comer de acordo com a fome, sem forçar uma restrição tão grande que a deixe mal‑disposta ou exausta.
Não precisa viver agarrada à garrafa de água nem beber até a urina ficar completamente transparente. Esse tipo de recomendação exagerada está ultrapassado.
Orientação geral:
Cerca de 1,5 a 2 litros de líquidos por dia funciona bem para muitas mulheres, dependendo do clima e da sua rotina. Isso inclui água, leite, chás, café dentro do limite de cafeína e líquidos presentes em sopas, frutas etc.
Mais útil do que contar copos é seguir estas ideias:
Água é ótima, mas também pode incluir:
Boca seca, tonturas e dor de cabeça podem ser sinais de que precisa aumentar os líquidos.
O seu corpo está a trabalhar em ritmo intenso. Vale a pena dar atenção especial a alguns nutrientes na dieta da amamentação.
Gravidez e parto podem baixar as reservas de ferro, e o cansaço por falta de ferro lembra muito o «cansaço normal» de mãe recente.
Boas fontes:
Combine fontes vegetais de ferro com alimentos ricos em vitamina C (como laranja, kiwi, morango, pimento) para melhorar a absorção. Se teve grande perda de sangue no parto ou já estava anémica na gravidez, o médico pode indicar suplementação de ferro.
O cálcio é importante para ossos e dentes. Se consumir pouco, o corpo vai buscar às suas reservas ósseas.
Aponta‑se para cerca de 1.000 mg de cálcio por dia, que pode vir de:
Os ácidos gordos ómega 3, especialmente o DHA, ajudam no desenvolvimento do cérebro e da visão do bebé e também podem influenciar o seu humor.
Boas fontes:
As recomendações em vários países de língua portuguesa vão na linha de:
Se não come peixe, considere um suplemento de ómega 3 à base de microalgas, indicado para vegetarianas e veganas.
A vitamina D influencia a saúde óssea, o sistema imunitário e até o humor. Em muitos locais de língua portuguesa, a exposição solar nem sempre é suficiente, seja pelo uso de protetor, seja pelo estilo de vida.
As orientações oficiais variam um pouco de país para país, mas em geral:
Vale a pena confirmar com o seu médico ou consultar as recomendações do sistema de saúde do seu país.
O iodo é importante para o funcionamento da tiroide e para o desenvolvimento neurológico do bebé. Em vários países, o consumo de iodo tem sido menor do que o ideal.
Principais fontes:
Algas também podem conter iodo, mas certas variedades, como kelp e kombu, podem ter quantidades excessivas, por isso não são para consumo diário em grandes quantidades. Se não consome lacticínios nem peixe, converse com o médico ou nutricionista sobre a necessidade de suplemento de iodo adequado à amamentação.
Até agora falámos do que você pode comer amamentando. Há, no entanto, alguns pontos em que o cuidado é importante.
Não é obrigatório largar o café. Boa notícia.
A cafeína passa para o leite materno, mas em quantidades pequenas. As principais diretrizes costumam recomendar um máximo de cerca de 200 a 300 mg de cafeína por dia para quem está a amamentar.
Na prática, isso significa algo como:
Lembre‑se de que:
Se o seu bebé anda muito agitado, com dificuldade em dormir e você consome bastante cafeína, vale testar uma redução para ver se nota diferença.
Não existe um nível de álcool completamente seguro para o bebé, mas é importante entender como o álcool entra e sai do leite.
Pontos essenciais:
As recomendações oficiais geralmente sugerem evitar o álcool na amamentação ou, se consumir, que seja de forma ocasional, em pequenas quantidades, com planeamento.
Se decidir beber:
Se as mamas ficarem muito cheias enquanto espera o álcool ser eliminado, pode extrair leite só para aliviar e descartá‑lo. É a única situação em que «tirar e deitar fora» faz sentido, mas não reduz a quantidade de álcool no corpo.
Se sente dificuldade para reduzir o consumo de álcool, fale com o médico ou com um profissional de saúde de confiança.
Aqui entra a parte individual.
Alguns bebés parecem reagir a determinados alimentos consumidos pela mãe na dieta da amamentação. Entre os mais citados estão:
Mas é importante reforçar: isso não é regra. Para cada mãe que garante que a cebola deixou o bebé em pranto, há outra cujo bebé dormiu tranquilo depois de um belo prato de feijoada.
Uma estratégia sensata:
Se os sintomas desaparecem sem o alimento e voltam de forma evidente quando ele reaparece, pode ter encontrado um fator desencadeante. Muitas vezes essa sensibilidade melhora à medida que o intestino do bebé amadurece.
Se precisar tirar grupos alimentares inteiros ou mais de um alimento importante (como leite e soja ao mesmo tempo), procure apoio de um nutricionista ou médico para não comprometer a sua nutrição.
A maior parte dos bebés não é afetada de forma significativa pelo que a mãe come, para além de variações normais de sono e gases. Uma pequena parte, porém, pode ter alergias ou intolerâncias verdadeiras.
A mais frequente é a alergia à proteína do leite de vaca (APLV).
Fragmentos de proteína do leite de vaca da sua alimentação podem passar em pequenas quantidades para o leite materno. Para bebés com APLV, isso já pode ser suficiente para desencadear sintomas.
Sinais que levantam suspeita:
Isto é bem diferente de um pouco de gases ou de um dia mais rabugento.
Se notar sintomas como sangue nas fezes ou eczema grave:
O médico pode recomendar:
Outros alergénios, como soja, ovo ou frutos secos, também podem passar para o leite materno, mas são causas de reação via leite com menos frequência. Evite diagnosticar, por conta própria, múltiplas alergias e cortar um monte de alimentos sem orientação.
Em muitos países de língua portuguesa, as autoridades de saúde recomendam que:
Mesmo que você tome vitamina D, o leite materno, por si só, geralmente não atinge a dose ideal para o bebé, a menos que esteja a usar doses altas sob indicação médica. Por isso, as gotinhas para o bebé são importantes.
Se consome peixe gordo uma ou duas vezes por semana, a ingestão de ómega 3 provavelmente é razoável. Se não, especialmente se for vegetariana ou vegana, um suplemento de ómega 3 pode ser interessante.
Procure:
Outros suplementos:
Na dúvida, converse com o médico, enfermeiro de saúde materna ou nutricionista. Desconfie de suplementos caros comprados pela internet com promessas milagrosas para «aumentar o leite».
Ser mãe hoje vem acompanhado de pressão por todos os lados: amamente assim, volte à forma assado, nunca coma isto, sempre coma aquilo. É desgastante.
Outra perspetiva possível:
Então:
E se em alguns dias a sua «dieta da lactante» se resumir a chá, pão e bolachas? Continua a ser uma boa mãe. Cuide de si com a mesma gentileza com que cuida do seu bebé, e o seu corpo faz o resto.